“Fa, você tá bem?” perguntou minha mãe, assim que apareceu na porta da cozinha com um ar preocupado
“To mãe” respondi “Foi só um pesadelo.”
“Foi só um pesadelo” repeti, tentando convencer a mim mesmo.
Voltei ao meu quarto e desliguei o computador. Perdi a vontade de ouvir musica, e agora eu queria apenas ficar no silencio e escuro absolutos. Demorei um pouco, mas acabei pegando no sono.
O barulho estridente do meu despertador tocando despertou-me de uma noite sem sonhos. Nada estranho depois que eu peguei no sono. Encarei o teto novamente, exausto. Lá vou eu, velha rotina, mesma coisa.
Levantei-me rapidamente, chegando a ficar um pouco tonto. Caminhei para a cozinha e as imagens de ontem à noite vinham até mim como um flash. Os olhos... Senti minhas mãos geladas novamente.
Farid, que coisa mais ridícula! pensei comigo mesmo Foi um pesadelo, não se deixe dominar por isso. Por que era tão assustador? Era só um professor. Possuído ou não, estava ali pra me ensinar frações. Só isso.
Comecei a me arrumar, e a imagem do professor não saia da minha cabeça. Mas que merda! Por que isso? Fiquei pronto meia hora antes do de costume. Inconscientemente, estava mais rápido. Várias coisas me percorriam a cabeça. Eu estava entrando na sala, e ele já estava lá. Então eu estava atrasado. Sem atraso, sem possessão. Certo? Mas espera ai, por que estou com tanto medo? Foi só um pesadelo. Ele estava explicando matéria, mas isso é raro, ele geralmente tenta nos converter à religião dele. Ai, ele é religioso, não pode ser um demônio disfarçado.
Estava tudo pronto. Enquanto colocava as canetas no meu bolso, encarei o potinho de Tic-Tac sobre a mesa. Isso é loucura... pensei comigo mesmo. Bem, Deus ajuda quem se prepara, já dizia Edna Mode.
Peguei a pequena vasilha e caminhei até a cozinha. Abri-a, e rapidamente despejei seu conteúdo na pia da cozinha. Não acredito que estou fazendo mesmo isso. Encarei a vasilhinha vazia em minha mão por alguns segundos, mas logo peguei o saleiro. Enchi o pequeno frasco com o tal pó branco, imaginando o que aconteceria se alguém na escola me encontrasse com aquilo.Faird, pelo amor de Deus, é só sal .Mas e se pensarem que é droga? Não vão pensar, isso é sal.
Respirei fundo, tapando o recipiente e colocando-o no meu bolso. Se ele estiver possuído, eu jogo o sal e corro.
Cheguei na escola e o portão ainda estava fechado. Encarei meu relógio, confirmando que faltavam quinze minutos pras sete. O portão só iria se abrir em cinco minutos, o que me dava tempo de sobra para não fazer absolutamente nada. Ficar sentado na frente da escola vendo o tempo se arrastar.
Tão logo o sinal tocou e o portão se abriu, eu corri para minha sala. Quando a primeira aula começou – matemática – eu já estava sentado em minha cadeira. A aula seguiu assustadoramente perturbante, comigo não conseguindo olhar meu professor nos olhos, ou ao menos encará-lo. Não, o simples som de sua voz já me dava arrepios.



